O cinema é uma manifestação artística que permite pensar a vida e viver o pensamento. Ele apresenta valor filosófico na medida em que estimula a vida pensada e o pensamento vivido.  Tendo em vista que é dirigido para o outro, o cinema é dotado de intenção significativa – “querer dizer”. Trata-se de uma obra de arte que busca a comunicação – transmite uma mensagem. Quando assistimos um filme, contemplamos a beleza de um veículo artístico imbricado de conteúdos. O seu bojo é carregado de idéias.

Além disso, o cinema é uma obra de arte cuja a finalidade é a expressão. Ele expressa a experiência particular e singular do autor, ou seja,  exprime a visão pessoal e subjetiva do autor a respeito do mundo. A sua maneira individual de vivenciar o mundo, isto é, o seu modo único e irrepetível de assumir e habitar o mundo. Assim, um filme pode ser concebido como uma projeção da psique do autor.

Por fim, o cinema tem por objetivo a produção de efeitos. A meta final de um filme é provocar uma radical transmutação no público. Não adianta apenas provocar um impacto na platéia. O espectador absorto pelo filme deve deixar a sala de cinema transformado. A sessão deve produzir uma mudança total na sua forma de experimentar a realidade. O seu modo de ser e estar no mundo deve ser permanentemente modificado.

No livro “Verdade e Método”, o filósofo alemão Hans Gadamer defende a tese de que uma obra de arte deve “empurrar o espectador para a verdade“. Ao assistir um filme, o espectador deve ser “lançado para dentro da verdade”. Que tipo de verdade? Gadamer não está tratando da verdade constatativa e descritiva do mundo objetivante das ciências. O propósito de uma obra de arte não é “arremessar” o espectador na verdade universal e necessária da esfera instrumentalizada do observável. Em vez da verdade pura e a priori do reino formal, Gadamer propõe uma verdade que seja isenta da predicação científica. Uma verdade que seja anterior à linguagem.

Qual seria a verdade mais fundamental proporcionada pelo contato com a obra de arte? Gadamer acredita que uma obra de arte possibilita ao espectador a verdade sobre si mesmo. Isso significa que “entrar” na verdade de uma obra de arte é identificar a verdade sobre si mesmo. Conhecemos e reconhecemos a nós mesmos quando mergulhamos na obra de arte. Ou seja, capturamos a nós mesmos na medida em que imergimos na obra de arte.

Como podemos compreender a nós mesmos através das obras de arte? Gadamer afirma que a obra de arte promove um entendimento de si a partir do momento em que ela “tira o espectador de si”. Ao sair de si, o espectador é levado a apreender a si mesmo. Ou seja, quando o espectador abandona as preocupações cotidianas do mundo da vida, ele “salta” no mundo da obra de arte. Ao “pular” no mundo imaginário habitável da obra de arte, ele é “jogado para fora de si”. Estando fora de si, ele pode compreender a si mesmo na obra de arte. Assim, achamos a nós mesmos quando nos esquecemos na obra de arte. Aos nos perdermos em um filme, acabamos encontrando a nós mesmos.

Em síntese, o cinema possui um estatuto filosófico na medida em que permite que percebamos a nós mesmos. Ele nos impulsiona a entrar em contato com nós mesmos. Quando afundamos na história de um filme, conhecemos uma verdade que escapa da calculabilidade e previsibilidade da razão instrumental científica; conhecemos a verdade sobre nós mesmos.

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