You are currently browsing tapace’s articles.

“Ter sensações na terceira pessoa, ser estrangeiro de si mesmo, voyeur dos próprios atos e de suas tristezas”, a frase de E.M Cioran me venho a mente tal logo acabou o filme “ Os famosos e os duendes da morte”.
A falta de pertencimento a uma estrutura que o mundo impõe é a causa da agonia sufocante que o protagonista sente, é através de suas relações virtuais que contemplamos o desnudamento de todos os sentimentos causadores de seu sofrimento, Mr. Tambourine Man (seu nick name) possue a consciência da gratuidade da existência humana.
A busca de um sentido que possa sustentar a própria vida (no caso dele um show de Bob Dylan) pode se tornar inalcançável…despertando desta forma a elucidante pergunta: a vida vale a pena ser vivida?
O sentimento angustiante de existir pulsa na tela o ambiente nebuloso e bucólico de uma pequena cidade da Serra Gaúcha reforça o estado de melancolia em que se encontram os habitantes, ato do suicídio é uma força constante na cidade (ás vezes até atraente). Os personagens não se encontram em uma lógica de vida, não há raciocínios que possam validar a existência.
O diretor Esmir Filho realiza um retrato pungente da existência humana, com pouquíssimos diálogos (porem brilhantes) o cineasta busca no silencio das cenas demonstrar a solidão inscrita na inanidade do desespero humano.
É uma pena que uma obra desta profundidade, feita artesanalmente tenha ficada apenas duas semanas em cartaz, a reflexão no cinema está sendo deixada de lado para que se possa adentrar os exemplos de superação e de redenção.

Como já dizia o saudoso Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”.

Fico contente de constatar a posição de nosso querido dissidente Chicão perante ao filme Banheiro do Papa.

Não pensem que as palavras que escrevo agora seja uma resposta as criticas realizadas por Francisco, ao contrário, antes de tomar conhecimento sobre o texto de Chicão já vinha esboçando uma leitura desse formidável filme e é esta leitura que quero compartilhar com vocês.

Inspirado em uma historia real, o cinema uruguaio nos presenteia esta pequena jóia.

Os diretores César Charlone e Enrique Fernandez retratam a pequena cidade de Mello onde seus habitantes vivenciaram a expectativa de visita do Papa João Paulo II.

Além de ser um grande acontecimento histórico e religioso que trará milhares de pessoas a cidade, os moradores de Mello enxergam em sua visita a grande oportunidade de conseguirem obter algum lucro. Enquanto todos se concentravam em vender comidas e bebidas o protagonista Beto concebe a “brilhante” idéia de construir um banheiro para o escoamento de toda esse banquete.

Possuindo uma bela fotografia e atuações memoráveis de atores amadores da região, o filme nos seduz pela singeleza das pessoas. A esperança destas pessoas simples em buscarem uma vida melhor não provem de uma negação ou renúncia das circunstancias que lhes são impostas pela vida.

É na afirmação desta vida que encontramos a beleza trágica deste drama, seus personagens são conscientes dos obstáculos e dificuldades que a vida implica, mas a paixão pulsante por essa vida valida todo empenho em carregar os pesados fardos que o mundo apresenta.

Em e o Mito de Sisifo, há uma passagem onde Camus descreve a punição imposta a Sísifo: “Os Deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cume de uma montanha de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança”.

Portador de uma esperança sem limites Beto representa o revoltado mítico Sísifo, ele é o operário de hoje que executa todos os dias de sua vida a mesma tarefa. Embora possua ciência de sua angustiante condição Beto pertence a uma ontologia do vivente, pois ama a vida intensamente.

Não nos equivoquemos em pensar que os diretores conceberam Beto como um herói isento de falhas, diferentemente dos heróis idealistas que perpetuam nosso imaginário Beto possui suas falhas, é um pai ausente, trai os seus princípios e amigos quando se encontra em dificuldade e exerce um enorme descontrole emocional quando bêbado, no entanto quando ao decorrer da última cena do filme ele sobe em sua bicicleta e parte em direção a mais uma jornada contemplamos a figura de nosso trágico herói moderno, “Beto”.