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Horkheimer e Adorno querem esclarecer radicalmente o esclarecimento sobre si mesmo, pois percebem que a realidade perdeu sua verdade e transformou-se em perversão e que a verdadeira face do ser não está meramente no simples ordenamento da realidade, ao constatar que esta “dominação não é meramente a alienação dos homens com relação aos objetos dominados; com a coisificação do espírito, as próprias relações dos homens foram enfeitiçadas, inclusive as relações de cada indivíduo consigo mesmo” (Horkheimer e Adorno 1985, p.40). O esclarecimento tem que tomar consciência de si mesmo e não ser passível de manipulação, operando “uma crítica de si mesmo a fim de libertar-se do emaranhado que o prende a uma dominação cega” Horkheimer e Adorno, 1985, p.15). Habermas (1990, P.166) apresenta o cenário trágico do esclarecimento: “O drama do esclarecimento só atinge sua peripécia quando a própria crítica da ideologia é suspeita de não produzir (mais) verdades – e o esclarecimento se torna reflexivo pela segunda vez. A dúvida estende-se então também à razão, cujos critérios a crítica da ideologia encontrara nos ideais burgueses, tomando-os ao pé da letra.” A concepção de ideologia como uma manipulação de massa, em que se engana o indivíduo, tem origem iluminista é denúncia da superstição. Na concepção hegeliana, a ideologia anuncia uma verdade sobre si que até então misteriosa, e, ao expor essa verdade, faz analogia com a sua experiência dessa mesma verdade e, desse juízo passado sobre si mesma vem à tona algo como um sentimento dramático de seu descompasso, de sua divisão. Refere-se a uma negação interna que procura resolver por uma nova atividade crítica comandada pelo seu próprio padrão de medida. A função da crítica da ideologia é questionar a verdade de um conhecimento suspeito, ao revelar sua falta de autenticidade e veracidade, conforme Habermas (1990, P.165-166): “A crítica torna-se crítica da ideologia quando pretende mostrar que a validade da teoria não se separou suficientemente do contexto de origem, que às coisas da teoria, se oculta uma ilícita mescla de poder e validade e cuja reputação se deve justamente a essa mescla.” Adorno e Horkheimer, segundo Habermas, recordam a imagem da crítica marxista da ideologia, que, partindo do princípio de que potencial racional expresso nos “ideais burgueses” e posto no “sentido objetivo das instituições”, mostra uma dialética: de um lado, empresta as ideologias da classe dominante, a aparência ilusória de teorias convincentes, de outro, oferece o ponto de partida para uma crítica, empreendida de maneira imanente, dessas construções, que elevam universal o que de fato serve apenas á parte dominante da sociedade. A crítica da ideologia interpretava na má utilização das idéias um fragmento da razão existente, oculto a si mesmo, e interpretava-se como uma regra que poderia ser cumprida por movimentos sociais, conforme o desenvolvimento de forças produtivas excedentes. Dessa forma, Adorno e Horkheimer almejam acertar as contas com o entendimento calculador que tomou o lugar da razão, que está relacionada com a totalidade, com pequena diferença entre a pretensão de validade (verdade ou falsidade) e a utilidade para a autoconservação (contém elementos de autodestruição). A razão instrumental, associou-se ao poder e abdicou da crítica, que segundo Habermas (1990, P.170) “é o último desvelamento de uma crítica da ideologia aplicada a si mesma. Esta descreve, contudo, a autodestruição da capacidade crítica de forma paradoxal, visto que no instante da descrição ainda tem de fazer uso da crítica que declarou estar morta. Ela denuncia o esclarecimento que se tornou totalitário com os meios do próprio esclarecimento.” A universalização da razão instrumental levada às últimas conseqüências implica a dinâmica de reificação elevada ao seu ápice.

Livros para consulta

 Dialética do Esclarecimento – Adorno & Horkheimer, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2006.

 Discurso Filosófico sobre a modernidade – Jürgen Habermas, Martins Fontes, 2º edição,2002.

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Inspirado no livro Oil! escrito em  1927 por  Upton Sinclair (1878-1968), o filme Sangue Negro (2008) dirigido por Paul Thomas  Anderson retrata o predatismo da violenta  exploração petrolífera. O seu tema central é a agressão brutal ao solo provocada pela sanha destrutiva dos desbravadores de petróleo. Com base no discurso desenvolvimentista científico, a inescrupulosa prospecção petrolífera culminou em crimes horrendos contra a natureza.

Em nome do progresso da humanidade, o minerador Daniel (Daniel Day-Lewis) construiu fraudulentamente um império petrolífero. Por meio da corrupção e da extorsão, Daniel conquistou fama e fortuna. Todavia, a  sua cobiça por poder e prestígio  acabou  bestializando a sua alma. Escravizado pelo encanto maligno do petróleo, o astuto Daniel não escapou da ruína moral. A sua degradação foi desencadeada pela  sua avidez por riquezas que  o impeliu a desnaturalizar a natureza e a desumanizar os seres humanos – tudo era tratado como meio de produção. O preço da sua ganância foi vender a sua alma ao petróleo.

A lógica capitalista de Daniel alicerçada no otimismo tecnológico foi ferozmente criticada pelos pensadores alemães Adorno e Horkheimer no texto “A Dialética  do Esclarecimento”. Partindo da análise do potencial destrutivo da razão, eles demonstraram os efeitos devastadores oriundos da  dominação societária da natureza. 

Na concepção dos expoentes da Escola de Frankfurt, a confiança no progresso científico redundou em conseqüências perniciosas para a totalidade natural. O  discurso de desencantamento do mundo pelas luzes  do esclarecimento culminou no rompimento do estado de indiferenciação entre o homem e  a natureza, na  ruptura da  comunhão original entre o  homem e a natureza e na redução da natureza ao papel de mero objeto. Ao conquistar a  natureza  pelo domínio da  submissão técnica, o  homem coisificou o mundo natural – perverteu a natureza em matéria amorfa e neutra.

Por causa da idéia iluminista de desenfeitiçamento da ordem natural, o homem submeteu a natureza ao controle científico da razão instrumental procurando transformá-la em instrumento de dominação. Por conseguinte, a natureza subordinada ao poder repressivo da racionalidade técnica passou a ser empregada pelo homem como meio opressor para escravizar o próprio homem. Isso significa que a natureza subjugada pelo saber tecnológico foi convertida em matéria-prima para a administração exploradora do sistema capitalista.

Considerando que a nossa amizade com a natureza está deteriorada, como podemos evitar um colapso ambiental? Em “Natureza e Revolução”, Marcuse propõe uma “nova descoberta da natureza”. Em vez de utilizar a natureza manipulada pela razão tecnológica como instrumento repressivo, Marcuse defende a natureza como aliada na luta contra as sociedades exploradoras. Ele afirma que é preciso a humanidade descobrir as forças libertárias da natureza para construir uma sociedade livre. Sem a apreensão dos impulsos emancipatórios da natureza, será impossível a transformação radical da sociedade.

Com efeito, Marcuse argumenta que a libertação da natureza requer uma nova tecnologia. A fundação de uma comunidade igualitária requer a libertação da natureza do abuso destrutivo das ciências e das tecnologias exploradoras. Ao invés de advogar um retorno ao elo primitivo entre o homem e a natureza, Marcuse prega uma utilização consciente das realizações da civilização tecnológica.

Por último, Marcuse postula que a emancipação da natureza pede uma “nova sensibilidade”. Em vez da sensibilidade mutilada e condicionada pela racionalidade violenta do capitalismo, Marcuse sugere uma sensibilidade radical – não-conformista. Uma sensibilidade que desempenhe um papel de resistência política contra a expansão dominadora capitalista. Uma sensibilidade que proteste politicamente contra a extensão opressiva do sistema capitalista.

Segundo Marcuse, esta nova sensibilidade tem uma práxis dupla: negação da realidade estabelecida e a afirmação da necessidade de uma nova sociedade baseada em uma educação estética. Ela promoveria uma ruptura total com a realidade capitalista de dominação e uma reconstrução radical da sociedade através de um processo de libertação da natureza interior e exterior.