You are currently browsing the category archive for the ‘André Comte-Sponville’ category.

A Felicidade Não Se Compra é um clássico natalino produzido pelo premiado cineasta Frank Capra em 1946. Um filme comovente que sensibilizou gerações com a sua convocação ao espírito da generosidade. O conto natalino retrata o desespero de um homem abnegado que renunciou os seus projetos de vida para ajudar aqueles que precisaram do seu auxílio generoso.

Dotado de uma natureza desprendida, George Bailey (James Stewart) era reconhecido pelos habitantes da pequenina Bedford Falls pela sua postura generosa – vivia em função das pessoas colocando as necessidades delas acima dos seus desejos pessoais. Tanto que sacrificou o seu plano aventureiro de explorar o mundo para assumir os negócios do falecido pai que tinha uma firma de crédito que financiava casas para os desabonados.

Mesmo pressionado pela sanha destrutiva do banqueiro Henry Potter (Lionel Barrymore) que locupletou-se às custas da miséria dos cidadãos de Bedford Falls, George Bailey persistiu em promover a esperança segundo a sua alma doadora. Contudo, um incidente trágico ocorrido na véspera de Natal acabou abatendo o seu ânimo. Acachapado com os dissabores que perseguiram a sua existência, George Bailey encontra no suicídio a saída para as suas desilusões. Neste momento desesperador, aparece um anjo chamado Clarence (Henry Travers) com a missão de persuadir George Bailey sobre o impacto devastador que a sua inexistência provocaria na vida da comunidade.

Entre os diversos assuntos abordados pelo filme, um tema que chama a minha atenção é a generosidade. Sem a generosidade de George Bailey que colocou os interesses dos outros acima dos seus próprios interesses, Bedford Falls teria sucumbido diante do poder do banqueiro Henry Porter. Foi a presença generosa de George Bailey que salvou a cidade da decadência. A sua atitude generosa em abdicar dos seus sonhos para realizar os sonhos da comunidade garantiu a sobrevivência de Bedford Falls.

No “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, André Comte-Sponville expõe a sua visão filosófica da virtude da generosidade. Ele afirma que a generosidade é a virtude do dom. Ela é uma virtude porque é uma disposição adquirida para o bem. Ela é um dom porque é uma dádiva. Ou seja, tendo em vista que a generosidade é conferida gratuitamente, ela é um presente. Embora seja uma gratuidade, a generosidade não é um ato livre. Ora, ser desinteressado não é ser livre. O gratuito não significa aquilo que não tem preço. Pelo contrário, o gratuito significa aquilo que não exige pagamento nem recompensa.

Sendo uma benevolência gratuita, a generosidade é disponível sem troca e oferecida sem contrapartida. Isso significa que a generosidade transcende a justiça. Justiça é dar a cada um aquilo que lhe pertence por direito. Por outro lado, a generosidade consiste em partilhar aquilo que pertence somente ao doador. Ou seja, a generosidade consiste em oferecer o que não é seu, o que é de quem oferece e que lhe faz falta. Portanto, enquanto a justiça pressupõe atribuir a cada um aquilo que lhe é devido, a generosidade pressupõe repartir os bens ignorando os méritos daquele que recebe o dom.

Além disso, a generosidade é a virtude que extrapola a solidariedade. Ora, ser generoso é agir em prol do bem-estar de um indivíduo cujos interesses não compartilhamos. O generoso pratica o bem em favor de uma pessoa sabendo que nenhum bem será revertido a ele; o generoso serve ao semelhante sem esperar que o semelhante sirva a ele. Em contrapartida, ser solidário é obrar com boa vontade em favor de uma pessoa cujos interesses compartilhamos. O solidário ajuda esperando ser ajudado; ele defende os próprios interesses reivindicando os interesses dos outros.

Segundo Comte-Sponville, a generosidade também excede o amor. Ora, fazer o bem para quem quer bem é amor; agora fazer o bem sem ver a quem é generosidade. Tendo em vista que é impossível amar sem dar, a generosidade supera o amor porque é destinada ao estrangeiro. Na generosidade, o sujeito compartilha as suas riquezas com os estranhos porque sabe que é melhor dar aquilo que possui do que ser possuído por aquilo que tem. 

Considerando que a generosidade eleva o indivíduo na direção dos outros, Comte-Sponville afirma que somente aquele que é liberto do seu pequeno eu pode ser generoso. Ao contrário do egoísta, o generoso tem mais alegria em partilhar do que receber. Ao invés de perder o coração ocupado pelo dinheiro, ele prefere perder o dinheiro que ocupa o coração.

Anúncios