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Criada em 1989 pelos humoristas Jerry Seinfeld e Larry David, a série Seinfeld durou nove temporadas. A proposta dos idealizadores consistia em destacar a relevância do cotidiano como fonte de material para os comediantes. Revelar que o conteúdo das piadas era extraído de eventos superficiais que compõem a rotina do comediante. Mostrar que as situações corriqueiras vivenciadas pelo comediante constituem a base primordial para a elaboração de apresentações humorísticas.

Não obstante, Seinfeld consolidou-se como uma série revolucionária quando assumiu a premissa de que era um programa a respeito de nada. Em vez de assinalar comicamente temas universais, Seinfeld preferiu tratar de assuntos considerados desimportantes pelo público, ou seja, enfocar os acontecimentos inócuos da vida comum desprezados pelos telespectadores. Ao contrário das séries concorrentes cujo enredo era pautado por tópicos surreais, o roteiro de Seinfeld privilegiava questões ordinárias decorrentes de atividades rotineiras, isto é, valorizava os assuntos banais deflagrados por eventos cotidianos.

Sendo assim, creio que o segredo do sucesso de Seinfeld está em ressaltar a significância do insignificante. A fama do programa decorre da preocupação em atribuir relevância para temas irrelevantes. Por conseguinte, o interesse da série por tópicos desinteressantes despertou a atenção dos telespectadores para os acontecimentos inexpressivos do cotidiano. Em outros termos, os seus episódios mostraram ao público a importância daquilo que era tratado como desimportante. Convidaram os telespectadores a perceber o despercebido, ou seja, a observar as experiências ínfimas da vida diária.

Assim como a tragédia, a comédia também foi conceituada filosoficamente por Aristóteles na “Poética”. Embora seja uma arte mimética como a tragédia, ele assevera que a comédia imita o ridículo (to geloion). Ela não representa ações nobres (praxeos spoudaias). Pelo contrário, a comédia visa representar seres humanos inferiores (mimesis phauloteron). Ou seja, o indivíduo representado pela encenação cômica é o ignóbil (phaulos) e nunca o herói (spoudaias) como na imitação trágica.

Partindo da perspectiva aristotélica, o rídiculo (to geloion) é caracterizado pelo erro (hanatema) ou pela feiura (aschos). Estes defeitos são representados na comédia sem dor e sem dano. Ou seja, a mímesis cômica representa os vícios do ignóbil com humor. Em vez de provocar piedade (eleos) ou medo (phóbos) no público como na mímesis trágica, a representação cômica desperta risos na platéia. As falhas de caráter do ignóbil é recebida com gargalhadas.

Em cima da definção aristotélica de ação cômica, podemos afirmar que Seinfeld foi uma série popular porque permitiu que o telespectador reconhecesse o seu próprio comportamento ridículo nos protagonistas. Quando o telespectador ria das atitudes erradas e feias das estrelas do show, na realidade ele ria da sua própria conduta errada e feia. Por meio de um espelhamento, o telespectador enxergava as suas próprias deformidades morais nas personagens.