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Dirigido pelo argentino Carlos Sorín, o filme A Janela (2009) aborda a solidão melancólica da velhice. Sofrendo com a inevitável degradação física, o famoso escritor Antônio (Antônio Larreta) experimenta a angústia de viver isolado da convivência social por causa da sua saúde debilitada. Através da janela do seu quarto, ele contempla a magnífica paisagem da sua propriedade sem poder desfrutá-la. A sua triste condição revela o contraste entre a fragilidade de um corpo velho e a vivacidade de uma alma jovem. Apesar da jovialidade do seu espírito, o seu corpo está em processo de definhamento. A sua mente sadia está presa em um corpo doente.

Além de tematizar as agruras da velhice, o diretor argentino enfoca a relação conflituosa entre pai e filho. Diante da iminência da morte, Antônio procura a reconciliação com o filho – um pianista eminente. A sua longa ausência é um sinal do desentendimento entre os dois. Tendo em vista a visita do filho, ele recobra o ânimo e contrata um afinador de pianos para preparar o instrumento musical abandonado. O esperado reencontro pode ser uma oportunidade para superar o abismo afetivo. A pergunta que fica é: será que o retorno do filho pode diminuir o hiato emocional entre os dois?

Preferindo planos fixos e ritmo lento, Carlos Sorín procura colocar o espectador na situação dolorosa da protagonista. Através de uma história narrada em um tempo curto e um espaço único, ele demonstra que os dias na idade avançada podem ser monótonos e enfadonhos. A mesmice da velhice pode provocar um vazio pertubador. Ademais, a economia narrativa – diálogos lacônicos – é um indício do desgaste intelectual de Antônio. Desiludido com a existência, o seu comportamento monossilábico advém do fastio da sua mente.

Em “Saber Envelhecer”, Cícero apresenta a sua perspectiva filosófica sobre o envelhecimento. Ao invés de recriminar a velhice como um fardo pesado, ele acredita que as lamentações da maturidade decorrem do caráter individual. É a natureza pessoal e não a velhice que tornam a idade avançada penosa. Ou seja, o desencantamento com a vida tem origem nas disposições de humor e nas falhas de comportamento. Isso implica que a velhice em si não é boa nem má. Segundo o prisma de Cícero: “quem não encontra dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade, achará execráveis todas as idades da vida. Mas todo aquele que sabe tirar de si próprio o essencial não poderia reprovar as necessidades da natureza”

Para suportar os assaltos progressivos da idade, Cícero acredita que o saber envelhecer implica na aceitação do curso natural da vida. Em vez de resistir ao poder implacável da ordem natural, o homem deve regular a sua existência segundo os ditames da natureza. Ou seja, obedecer as coerções da natureza reconhecendo a sua impotência diante da inevitabilidade do ciclo natural. Ao perceber que a natureza age sem consultar a sua vontade, o homem aprende que a velhice é um evento natural que escapa do seu controle. Posto que o envelhecimento é um processo natural irremediável, aquele que guiar o seu destino pela natureza não encarará a velhice como um ataque brutal da idade.

Além disso, Cícero postula que a arte de envelhecer pressupõe que o homem usufrua dos prazeres proporcionados por cada idade. Ora, a natureza imputa cada etapa da vida de qualidades determinadas. Cada faixa etária oferece virtudes atribuídas pela natureza. Sendo assim, a vida feliz exige o desfrute dos méritos proporcionados por cada fase da existência. Somente quem aproveitou os benefícios propiciados por cada idade poderá encontrar gozo na velhice. Conforme a visão de Cícero: “Pois a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos e a maturidade dos velhos são predicados naturais que devemos apreciar cada um ao seu tempo”.