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Terminei de ler Diderot e fiquei uns dias pensando sobre os escritos deste filósofo. Realmente, o “Paradoxo do Comediante” é uma obra que ainda levanta questões e acredito vai permanecer com esta qualidade por muitos e muitos anos. Junto com a leitura de outros importantes nomes como Brecht, Artur de Azevedo, Stanislavski e, por quê não Augusto Boal, faz com que a gente tenha um olhar mais amplo sobre a arte teatral e sobre a importância do ator para as artes também no cinema e televisão. E a importância que este ator deve dar ao domínio das técnicas de representação, base essencial e necessária para seu bom desempenho tanto no palco como nos estúdios. A preparação do corpo e da voz para que estes respondam ao “chamado” da personagem, caracterizando assim o vilão, o mocinho ou a donzela, são ensinados em escolas há muitos anos. Falo aqui das escolas sérias.

Muito se pensou e também se escreveu sobre o corpo do ator, a condição do corpo como veículo do representar, aquele que é, digamos, o casulo da personagem. Também muito se fala em laboratórios para a constituição do papel, onde o ator busca em referências externas bases mais sólidas para constituição da personagem, como vivenciar ou dividir o dia de um médico ou ladrão, se este for o que ele deva representar em determinada peça, filme ou novela. Há ainda aqueles atores que, com o roteiro em mãos, buscam na literatura ou apenas na observação insigths para composição da personagem. E há aqueles que, dizem, nasceram com o talento e só precisam se entregar ao papel.

Se Diderot vivesse hoje, para mim, acho que ele diria que tudo isso é balela, que a verdadeira técnica está no domínio da sensibilidade, representando-a no papel, mas contendo-a na realidade. A personagem não pode dominar ou tomar o ator, mas sim o ator ter total controle da personagem, de modo que não se confunda com ela, que sua vida não seja a vida criada pelo autor da personagem para a peça ou filme. Até porque o que está na mente do autor não é o que vem à mente do ator – o Otelo descrito por Shakespeare não é o mesmo Otelo representado pelo saudoso e maravilhoso Paulo Autran, por exemplo. Autran entendeu e deu ao seu Otelo as características básicas descritas por Shakespeare, mas um “plus” veio de dentro, veio da técnica e do domínio que Autran tinha em ceder de si algo a mais que diferencia seu Otelo de outros Otelos interpretados por atores diferentes, experientes ou não, conhecidos e aclamados ou não, anos afora.

Diderot também ficaria com os cabelos da peruca em pé ao ver a industria cultural (termo nascido nas críticas de Adorno & Horkheimer) fazer da arte uma experiência só para os olhos e para os bolsos. A arte é para ser pensada, degustada, experimentada. Não é para ser alienada ou alienante. Dá pra discutir se um ou outro programa de tevê, obra, filme ou livro é ou não arte, mas não dá pra engolir que há técnica atrás destes que os qualifiquem como uma obra de arte. O que fariam Aristófanes e Goethe se estivessem no Big Brother?? Não consigo nem imaginar….

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Filósofo francês, Denis Diderot (1713-1784) viveu plenamente o chamado Século das Luzes, tendo como uma das importantes obras de seu tempo a Encyclopédie, da qual foi diretor editorial junto com D´Alembert, obra que englobava temas ligados às ciências, artes e ofícios de seu tempo. A Encyclopédie levou mais de vinte anos para ser escrita e, segundo alguns historiadores, tornou-se um instrumento ideológico que eles nomearam como “preparatório” para a Revolução Industrial. Tanto no terreno fértil das artes quanto no da filosofia, Diderot caminhou pelo teatro e pela literatura escrevendo importantes obras de cunho filosófico cínico como “Pensamentos Filosóficos”, “Carta sobre os cegos para o uso dos que enxergam” e “Carta sobre os surdos-mudos”. Obras literárias e teatrais como “Ensaio sobre a pintura” lhe rendeu elogios póstumos de Goethe; “A religiosa” e “O sobrinho de Rameau” foram obras em que temos mais do que marcados o estilo crítico, espirituoso e estruturado de Diderot.

 

Em o “Paradoxo sobre o comediante”, obra escrita no final do século XVIII, Diderot versa sobre o teatro, expondo suas reflexões e críticas sobre esta arte tão antiga e, ao mesmo tempo, incitando mudanças àquela maneira de fazer teatro dos antigos (uma forma teatral vista pelo filósofo como agonizante, antiquada, vinda de uma cultura que já era em seu tempo considerada ultrapassada, sem energia). Para Diderot, o teatro deveria espelhar a sociedade e seus movimentos sociais, incluindo sua participação na política e economia, nos movimentos do pensar e do querer – ou seja, espelhar a vida vivida, a vida real do homem, tanto o burguês como do campo, tanto o político como o do povo.

 

Uma coisa deve-se ressaltar, porque muda totalmente a primeira impressão que se tem ao depararmos com o título do livro: comediante não é aquele que, para o senso comum, faz graça e domina as técnicas da comicidade, ou seja, aquele que faz rir. Comediante é o ator de teatro, tanto o cômico como o trágico, tanto o que representa o herói como o anti-herói. O termo é adotado por Diderot para falar dos atores teatrais, que segundo ele “são homens de raro talento e de uma utilidade real, são pregadores mais eloqüentes da honestidade e das virtudes do que aqueles vestidos de batina e barrete quadrado na cabeça que pregam do alto dos púlpitos”.

 

Desta obra de Diderot (que foi lida por Bergson) temos em comum a importância dada às artes para a vida do homem social, aquele homem que vive e precisa viver em sociedade. Para Bergson em “O Riso”, as artes tiram os véus das coisas, fazendo com que a gente veja as coisas como elas são, por elas mesmas, e não simples rótulos ou etiquetas que consciente ou inconscientemente colamos sobre elas. Para Diderot, no teatro (como uma das formas de arte), interessa muito menos a forma como se diz as coisas do que o que é dito de fato; a fidelidade ao mundo real, o realismo é o que mais importa para o filósofo. Como temas comuns abordados, temos a questão da razão (a inteligência pura, para Bergson) e a sensibilidade. Para Bergson, a razão na comicidade é superior à emoção e só rimos porque somos capazes de anestesiar o coração, não compartilhar com aquele que é objeto de riso sentimentos de dó, piedade, comoção. Para Diderot, todo ator deve ter alma, discernimento e sensibilidade, só que esta deve ser “administrada” (ou seja, o uso da razão se faz necessário) de modo que a sensibilidade seja expressa nas obras representadas no palco dentro de uma justa medida – nem a mais, nem a menos.

 

Curiosamente, para Diderot, os maiores atores que são dotados de imaginação, usam logicamente a razão e dominam seus gestos e postura no representar são aqueles que menos se apresentam sensíveis – sabem representar a sensibilidade humana, mas não exprimem sua própria sensibilidade. O ator e a personagem que ele representa guardam devida distância, embora sua representação do papel no palco seja de certo modo “vivida” pelo ator com intensidade. A experiência sensível deve ser, então, do espectador que irá vivenciar a catarse (no caso das tragédias) ou o prazer (no caso das comédias).

 

Apesar do passar dos anos ter colocado a obra em um patamar um tanto superado, pois o teatro desde a publicação da obra até os dias atuais vêm mudando e renovando-se constantemente, “Paradoxo do Comediante” ainda é uma obra provocadora que incita debates entre estudantes de artes e de filosofia. É também uma obra que muito acrescenta àqueles que se aprofundam no estudo e pesquisa do pensamento de Diderot e da época das Luzes, trazendo importantes informações sobre o modo de pensar e viver a arte no século XVIII.

 

DIDEROT, DenisParadoxo sobre o comediante – Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal ‘54’ – São Paulo : Editora Escala, 2006.