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Vencedor do oscar de melhor filme em 2008, Onde os Fracos Não Tem Vez é um filme pertubador amado pela crítica e odiado pelo público. Dirigido pelos irmãos Cohen, a trama consiste na perseguição implacável de um assassino impiedoso (Javier Bardem) ao pacato soldador (Joss Brolin) que roubou uma mala de dinheiro ilegal. Ao contemplar o cenário apocalíptico de cadáveres baleados apodrecendo no deserto por causa de uma trágica transação narcotráfica, o caçador solitário de cervos aproveitou a oportunidade e usurpou a grana do contrabando. Acabou encalçado por um matador profissional que abate vidas como ovelhas no matadouro.

Levando em consideração a secura narrativa, os diálogos lacônicos, o roteiro desamarrado, os planos longos, o vazio emocional, a ausência musical e o final aberto, o público acabou desmerecendo a qualidade do filme. Contudo, o que mais incodomou os espectadores foi a violência brutal.  Crimes horrendos são cometidos por um homicida sanguinário que carrega um sofisticado equipamento mortal. A gratuidade da sua extrema violência provoca um desconforto na platéia que não identifica as razões seminais das suas atrocidades. Será que ele mata por prazer? Será que ele mata por poder? Será que ele mata por reconhecimento? Será que ele mata por fortuna? Será que ele mata por vingança? Será que ele mata por vaidade? Será que ele mata por matar?

Além disso, a revolta dos espectadores é causada pela morte desnecessária de cidadãos inocentes. Entre as vítimas do criminoso vil estão balconistas, granjeiros e hoteleiros. Trabalhadores decentes que foram assassinados sem motivos aparentes. A abjeção do psicopata é tamanha que ele liquidou um idoso que lhe ajudou com o carro quebrado na estrada. Doravante, em vista das cenas odiosas onde o assassino impinge dor à pessoas de bem, o público acabou acusando o filme de ser um culto ao sadismo. As execuções inexplicáveis – não existe uma causa subjacente aos crimes cometidos – foi recebida com uma furiosa indignação pela platéia.

A verdade é que a desvalorização do filme pelo público foi  motivada pela incompreensão da proposta dos diretores. Ao expor a banalidade do mal, os irmãos Cohen mostram que a crueldade do assassino de aluguel Anton Chigurh é desencadeada pela indiferença moral. No livro “Vida Vicío Virtude” organizado por Adauto Novaes, Renato Lessa apresenta a indiferença como vício. Ela consiste na rejeição da humanidade compartilhada. Trata-se de uma desistência do humano comum. Ao recusar o nexo com a humanidade, o indiferente moral revela o seu horror ao sentimento de pertencimento. Ele nega a sua comunalidade na espécie humana.

Ora, a personagem de Javier Bardem não reconhece a sua inscrição no gênero humano. Ele não percebe a sua identidade com o humano comum. Ao invés de tratar o humano comum como seu semelhante, ele instrumentaliza o humano comum na medida em que reduz os sujeitos ao papel de objetos. A sua consciência coisificada despersonaliza os indivíduos transformando-os em matéria amorfa. Considerando as pessoas como meios e não como fins, ele não apenas desumaniza a vítima; acaba desumanizando a si próprio.

Segundo Lessa, a indiferença moral é o vicío originário que potencializa a malignidade dos demais vícios. Ela funciona como suporte para a operação dos vícios ativos. Uma vez que a indiferença moral é o princípio constitutivo de todos os vícios ativos, todos os atos de crueldade de Anton Chigurh são precedidos pela sua indiferença moral.

Sendo assim, tendo em vista a indiferença moral como condição primordial para a efetivação dos demais vícios, o prazer gratuito de Anton Chigurh em causar sofrimento não é inexplicável. A sua crueldade decorre do movimento de recusa da humanidade compartilhada. Ao rejeitar os laços de igualdade com o humano comum, ele também rejeita a compaixão como “virtude natural” (Rousseau). A sua indiferença moral anula o seu sentimento natural de piedade – “repugnância inata por ver sofrer qualquer ser sensível”. Ao deixar que o impulso natural de comiseração ceda lugar ao vício da indiferença moral, ele acaba tornando-se um ser impassível – insensibilidade frente o sofrimento alheio. Isso significa que a sua ausência de simpatia com a dor do humano comum é a força geradora da sua crueldade.

Em resumo, Onde os Fracos Não Tem Vez aponta a indiferença moral como um fator instalado na condição humana civilizada. O nosso esforço civilizatório culminou na imparcialidade moral diante da desgraça do outro. O grau de pregnância da neutralidade moral em nossa sociedade é tamanho que sempre haverá seres cruéis como Anton Chirgurh. Em face da frieza inseparável da nossa constituição civilizatória, os irmãos Cohen produziram um filme sombrio que mostra o germe da barbárie do mundo contemporâneo – a indiferença moral.