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Inspirado no livro Oil! escrito em  1927 por  Upton Sinclair (1878-1968), o filme Sangue Negro (2008) dirigido por Paul Thomas  Anderson retrata o predatismo da violenta  exploração petrolífera. O seu tema central é a agressão brutal ao solo provocada pela sanha destrutiva dos desbravadores de petróleo. Com base no discurso desenvolvimentista científico, a inescrupulosa prospecção petrolífera culminou em crimes horrendos contra a natureza.

Em nome do progresso da humanidade, o minerador Daniel (Daniel Day-Lewis) construiu fraudulentamente um império petrolífero. Por meio da corrupção e da extorsão, Daniel conquistou fama e fortuna. Todavia, a  sua cobiça por poder e prestígio  acabou  bestializando a sua alma. Escravizado pelo encanto maligno do petróleo, o astuto Daniel não escapou da ruína moral. A sua degradação foi desencadeada pela  sua avidez por riquezas que  o impeliu a desnaturalizar a natureza e a desumanizar os seres humanos – tudo era tratado como meio de produção. O preço da sua ganância foi vender a sua alma ao petróleo.

A lógica capitalista de Daniel alicerçada no otimismo tecnológico foi ferozmente criticada pelos pensadores alemães Adorno e Horkheimer no texto “A Dialética  do Esclarecimento”. Partindo da análise do potencial destrutivo da razão, eles demonstraram os efeitos devastadores oriundos da  dominação societária da natureza. 

Na concepção dos expoentes da Escola de Frankfurt, a confiança no progresso científico redundou em conseqüências perniciosas para a totalidade natural. O  discurso de desencantamento do mundo pelas luzes  do esclarecimento culminou no rompimento do estado de indiferenciação entre o homem e  a natureza, na  ruptura da  comunhão original entre o  homem e a natureza e na redução da natureza ao papel de mero objeto. Ao conquistar a  natureza  pelo domínio da  submissão técnica, o  homem coisificou o mundo natural – perverteu a natureza em matéria amorfa e neutra.

Por causa da idéia iluminista de desenfeitiçamento da ordem natural, o homem submeteu a natureza ao controle científico da razão instrumental procurando transformá-la em instrumento de dominação. Por conseguinte, a natureza subordinada ao poder repressivo da racionalidade técnica passou a ser empregada pelo homem como meio opressor para escravizar o próprio homem. Isso significa que a natureza subjugada pelo saber tecnológico foi convertida em matéria-prima para a administração exploradora do sistema capitalista.

Considerando que a nossa amizade com a natureza está deteriorada, como podemos evitar um colapso ambiental? Em “Natureza e Revolução”, Marcuse propõe uma “nova descoberta da natureza”. Em vez de utilizar a natureza manipulada pela razão tecnológica como instrumento repressivo, Marcuse defende a natureza como aliada na luta contra as sociedades exploradoras. Ele afirma que é preciso a humanidade descobrir as forças libertárias da natureza para construir uma sociedade livre. Sem a apreensão dos impulsos emancipatórios da natureza, será impossível a transformação radical da sociedade.

Com efeito, Marcuse argumenta que a libertação da natureza requer uma nova tecnologia. A fundação de uma comunidade igualitária requer a libertação da natureza do abuso destrutivo das ciências e das tecnologias exploradoras. Ao invés de advogar um retorno ao elo primitivo entre o homem e a natureza, Marcuse prega uma utilização consciente das realizações da civilização tecnológica.

Por último, Marcuse postula que a emancipação da natureza pede uma “nova sensibilidade”. Em vez da sensibilidade mutilada e condicionada pela racionalidade violenta do capitalismo, Marcuse sugere uma sensibilidade radical – não-conformista. Uma sensibilidade que desempenhe um papel de resistência política contra a expansão dominadora capitalista. Uma sensibilidade que proteste politicamente contra a extensão opressiva do sistema capitalista.

Segundo Marcuse, esta nova sensibilidade tem uma práxis dupla: negação da realidade estabelecida e a afirmação da necessidade de uma nova sociedade baseada em uma educação estética. Ela promoveria uma ruptura total com a realidade capitalista de dominação e uma reconstrução radical da sociedade através de um processo de libertação da natureza interior e exterior.