You are currently browsing the category archive for the ‘Merleau-Ponty’ category.

Recentemente escutei o último álbum do cantor e compositor Otto, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (uma referência ao livro A Metamorfose, de Franz Kafka) e fiquei maravilhada com a metamorfose desse pernambucano.  

Bancado com dinheiro próprio, o disco foi produzido graças ao apoio de amigos do músico nos Estados Unidos. Foi lançado em agosto de 2009 por lá, e chegou ao Brasil somente em dezembro.

Capa do novo álbum de Otto

No álbum inteiro, como diz a letra da belíssima Crua, “há sempre um lado que pese e outro lado que flutua. A percussão continua presente, mas o tempero a mais é dado pelas cordas, com guitarras de riffs pesados e violinos, mesclados em arranjos eletrônicos.

Em 6 minutos, o auge da sua fúria aparece nos vocais rasgados. Já a doçura da voz latina de Julieta Venegas e a sedutora rouquidão da cantora brasileira Céu dão suavidade às letras viscerais de Otto. A obra nasceu em meio a tempestades pessoais: a briga com a gravadora, a morte de sua mãe e também sua separação da atriz Alessandra Negrini.

As letras angustiadas de Otto comprovam essa influência. Mas será que podemos constatar que um artista encontra o seu ápice criativo somente em momentos extremos? O filósofo Merleau-Ponty propõe uma reflexão no texto A Dúvida de Cézanne sobre a influência emocional do artista em sua obra.

Mulher com Cafeteira, de Paul Cézanne

A personalidade excêntrica e rígida do pintor Cézanne, um dos gênios da pintura do início do século XX, foi relacionada por algumas pessoas ao seu trabalho, que se distanciava do estilo da época, mais precisamente, o impressionismo. Suas pinturas com imagens de pessoas e objetos com contornos “distorcidos” construídos pelas cores foram recebidas com certa repugnância pelo público, e até pelo amigo mais próximo, Émile Zola, que via nelas um caráter “inumano”, como se fossem a consequência da personalidade singular do pintor. No entanto, para Ponty, a pintura de Cézanne nos ensina a enxergar o mundo. As imagens de suas pinturas parecem expressar o movimento do olhar sobre um objeto, o que não é captado pela visão de imediato. É como se ele conseguisse deter a oscilação do olhar sobre as coisas. E é justamente essa a experiência estética que amplifica nosso conhecimento, e não aquela que tenta copiar o que vê perfeitamente, a realidade perfeitamente geométrica – esta sim – inumana.

Otto se abriu ao mundo para a sua nova criação, e assim induziu e se deixou induzir por ele, sem se centralizar. O momento de metamorfose – como o título indiretamente sugere – que o cantor viveu deu-lhe a percepção de novas possibilidades de compreensão de mundo e contribuíram para a construção de seu disco. É como a ostra, que responde com uma pérola seu momento de aflição.

Com isso, conclui-se que o equívoco está em determinar a obra unicamente à vida do artista, como se a sua angústia fosse o motivo da concepção da obra, e não a resposta.