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“Trata-se de uma imagem, isto é, um conjunto de linhas profundamente enterradas na carne e que subjugam qualquer matéria que caia em seu poder – respondeu Ibn Al Houdaida. A imagem é dotada de uma irradiação paralisante; como a cabeça da Medusa que transformava em pedras todos os que passavam sob o seu olhar. Todavia, essa fascinação não é irresistível senão aos olhos dos analfabetos. Com efeito, a imagem não é mais do que um emaranhado de signos. A sua força maléfica vem da junção confusa e discordante de seus significados como a queda e o entrechoque dos bilhões de gotas de água do mar que formam em conjunto o bramir lúgubre da tempestade. Contudo, para o ouvido dotado de discernimento, a imagem soa como um concerto cristalino. Para o letrado, a imagem não é muda. O seu rugir de fera desdobra-se em inúmeras e graciosas palavras. Trata-se simplesmente de saber ler…”

O belo texto acima foi extraído do livro “A Gota de Ouro” escrito por Michel Tournier. Trata-se de um arrazoado magnífico sobre o fascínio das imagens. Tournier acredita que a imagem não é exterior ao homem. Pelo contrário, a imagem está “enterrada na carne”. Isso implica que a imagem está imbricada no ser do homem. A imagem está entranhada no espírito humano. A imagem está enraízada na alma humana. Por isso, o poder encantador da imagem reside no fato de ser parte integrante da vida humana. Ela está tão inscrustada na humanidade que podemos afirmar que os seres humanos nascem com imagens “estampadas na mente” ou “inscritas no coração”. Como pode um cego de nascença formular imagens de paisagens sem nunca ter contemplado uma paisagem?

Além disso, Tournier afirma que a força mágica da imagem está na sua capacidade de capturar o olhar do espectador. Trata-se de uma “irradiação paralisante” que petrifica o espectador como a cabeça de Medusa. Ao fixar a sua visão em uma imagem, o espectador corre o risco de ficar imóvel diante de tamanho feitiço. Absorvido pelo encantamento da imagem, ele acaba totalmente inativo – sem ação e sem expressão.

Não obstante, Tournier assevera que a imagem é “irresistível aos olhos dos analfabetos”. Tendo em vista que a imagem é um “emaranhado de signos”, ela precisa ser interpretada para quebrar o encantamento. É necessário uma atitude reflexiva sobre os significados da imagem para poder eliminar o seu deslumbramento. Através da interrogação mental acerca do sentido da imagem, o homem pode ser liberto do seu apelo sedutor. Assim, somente “o ouvido dotado de discernimento” pode exercer uma investigação intelectual sobre o conteúdo semântico da imagem.

Desse modo, embora sejamos subjugados pelo fascínio arrebatador das imagens fulgurantes do cinema, precisamos adotar uma postura crítica para não ficarmos presos ao estado de êxtase. Posto que a imagem não é muda, precisamos aprender a “ler a imagem”. Ora, toda imagem é constituída de um material linguístico que desperta pensamentos. Sendo permeada de palavras ocultas, a imagem exige um exame racional para ser apreendida. O seu aparato discursivo escondido requer uma análise intelectual para ser compreendido. A contemplação da imagem não pode ser desacompanhada da reflexão da imagem.

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