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Zeno era um homem que se achava (e parecia ser) esperto. Era um homem comum, vivendo uma vida comum, com problemas em comum e relações comuns também. Zeno era arrogante às vezes, doce em alguns momentos, firme em outros, inexpressivo em muitos. Zeno, assim como os comediantes, gostava de observar. Ele era um particular que, aprofundando o olhar, conseguimos encontrar tantos outros gerais constituintes de Zeno. Esta é minha descrição da personagem principal da obra de Ítalo Svevo A consciência de Zeno. Fiz esta leitura há alguns anos e, ainda, por muitas vezes no curso comum das coisas da vida, volto mentalmente à história como base para reflexões. Não vi a obra de Svevo como um romance, nem tão pouco como ficção apesar de o serem de fato: pareceu-me mais um diário.

Zeno fazia análise com um psicoterapeuta que ele não admirava e pelo qual não esboçava grandes afetos, tudo para conseguir deixar o vício de fumar. A tarefa primeira de sua vida, durante o período que foi ‘analisando’, era de provar (por meios às vezes não tão inteligíveis ao senso comum) que ele conseguia enganar seu analista. Sua meta era ouvir do psicoterapeuta: “você está curado”, mesmo conscientemente sabendo não estar. Mentindo, trapaceando, utilizando-se de uma sinceridade armada muitas vezes, as sessões de análise descritas no livro (como se Zeno estivesse narrando-as) são ricas em detalhes e aguçam a imaginação do leitor.

A personagem traz características de um anti-herói que briga consigo mesmo (com sua consciência), que inverte os papéis sociais e as posições hierárquicas, mas busca algo ideal que pressente ser o “passe” para sua liberdade. Seria trágico se não fosse cômico. Zeno faz uma caricatura do psicanalista e do analisando, provocando muitas vezes nas situações descritas o riso do leitor. O analista é o senhor da razão, o que diz saber que ele tem um problema e que também diz saber o caminho da cura. O analisando é aquele que acha ter um problema (porque alguém disse que ele tem, porque se sente diferente em relação aos outros ou nem sabe o porquê).

Zeno é uma mistura do Zaratustra de Nietzsche com o célebre Zorba, o Grego, inclusive com a cara do inesquecível Antony Quinn. Zeno é também um clown, é um espelho que nos reflete de forma distorcida, uma imagem carregada de realidade e significados, mas que muitas vezes nosso gosto (ou a nossa própria consciência) se recusa a apreciar, e fecha os olhos para não ver.