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Há alguns que defendam que a Filosofia tem se transformado em uma História um pouco mais especializada e requintada. Há outros que defendem que não há nada mais a ser descoberto na Filosofia. Há outros que advogam pela tese de que a Filosofia ainda é uma mina de ouro a ser explorada. São três correntes que circundam o ambiente acadêmico-filosófico no Brasil, creio que também em âmbito mundial. É certo que fazer Filosofia, sem olhar o seu transcorrer histórico, é um anacronismo gigantesco. O filosofar se faz por uma relação de concordância, por uma relação de crítica, ou até mesmo por uma relação de indiferença. Na relação de concordancia, há a relação de conformidade, onde o individuo concorda plenamente com a tese do autor, mas sem estabelecer quaisquer ressalvas. Na mesma relação de concordância, o indivíduo também pode ir mais além do que uma mero consentimento filosófico; pode aprofundar a questão estudada, no que pode resultar em novas problemáticas a serem tratadas, que poderão emergir um novo conhecimento. Na relação de crítica, há aqueles que desferem uma crítica voraz, mas o fundamento de seu argumento é inconsistente. Daqui, somente a possibilidade de saber que a crítica foi ou mal elaborada, ou viciada, ou anacrônica, ou mal intencionada. Na mesma relação crítica, a crítica que se impõe sobre uma questão filosófica., se que preocupa em examinar a fundo todas as variáveis envolvidas, e que identifica os furos de idéias e argumentações, argumentos tautológicos e falaciosos. Se preocupa não somente com a formatação lógica da argumentação, também a consistência real da idéia que está sendo tratada e trabalhada. Na relação de indiferença, ou a pessoa ainda não entrou em contato com a obra, e ainda não pode emitir quaisquer considerações acerca da mesma, mas que ao tomar contato com a obra, se interessa, e daqui surge novos questionamentos, novas problemáticas e novas soluções, em maior ou menor abrangência, ou o indivíduo que já se debruçou sobre uma obra, é indiferente a questão, pois concebe que ela é desnecessária e então com sua indiferença pedante, dá um ‘ponto final’ . Deixemos a indiferença na indiferença, pois a Filosofia é construída por relações reais e concretas. O que consigo constatar é que, na postura de concordância e de crítica, tem se pautado muito mais por comentários do que por novas descobertas. As poucas novas descobertas que identifico na Filosofia, tem-se caracterizado mais por descobrir influências de um autor X no autor Y. Mas arrisco em dizer que das áreas que tem dado contribuições significativas para a Ciência é a Filosofia da mente. Será que todo conhecimento filósofico deve ser mesmo ‘útil’? Será que todo conhecimento filosófico deve ser ‘inútil’? Se o conhecimento filosófico deve ser estritamente ‘útil’, então, a Filosofia se reduziu à Epistemologia. Se o conhecimento filosófico deve ser estritamente ‘inútil, então, a Filosofia se reduziu à Estética. Penso que a Filosofia não pode deixar de ter a sua dimensão ‘útil’ e ‘inútil’, tampouco pode deixar seu horizonte histórico e atual. Não deve reduzir-se a História, nem esquecer seu passado. Não deve resumir-se na atualidade, nem rechaçar o que é atual. Não deve reduzir-se ao utilitarismo, mas deve ser útil a humanidade. Não deve resumir-se em conhecimento ‘inútil’, mas esse tipo de conhecimento deve ter seu espaço. É essa interdisciplinariedade filosófica, essa trama bem elaborada entre as disciplinas filosóficas, é que faz com que a Filosofia seja tão fascinante, mantendo durante o tempo seu elã sedutor.

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Adentrando aos tempos atuais, é possível afirmar que o desinteresse pela verdade chegou ao limite do tolerável, a tal ponto que o homem moderno e contemporâneo acredita que a verdade e o falso, o certo e o errado já não existem mais. Esse espaço de reflexão se faz necessário para a conscientização e esclarecimento, sem regras ditatoriais ou relativismos obtusos, pois os extremos são sempre radicalizações. Fiquemos, então, com a radicalidade nua e crua da denuncia de Lauand: “Particularmente hoje, a crise da verdade assume proporções inéditas: em nosso niilismo pós-nietzchiano assumido, desarticulou-se a verdade, o ser e a unidade em favor da não-verdade, do não-ser e do não-uno.” (1)  Lauand analisa que a harmonia trilogística entre verdade, ser e unidade foi desmantelada, e foi elevada a escalas jamais vistas em promoção da privação ou do obscurecimento da verdade, do ser e da unidade. Disso resulta que a lei da oferta e da procura possa pender mais para relativismos anacrônicos, verborragias que tendem ao nada do que para a beleza da verdade, seja ela útil, no sentido do conhecimento empírico e metafísico, ou, seja ela contemplativa no horizonte estético da arte. Tal como a chuva enche os oceanos, este processo de corrosão da verdade vem de longa data, a começar com os Pré-Socráticos na figura de Protágoras, passando pelas escolas céticas pirrônicas e acadêmicas, estendendo suas raízes na hermenêutica pós-contemporânea. Com relação aos pré-socráticos, Lauand considera que: “O clima intelectual hodierno… neste mundo de globalização, lembra mais a posição de Protágoras (c. 490 – c. 421 a.C), expressa na famosa sentença: “o homem é a medida de todas as coisas”. E assim cada um tem a sua própria verdade como tem sua própria religião, moral, filosofia, etc… O que importa é não pretender que sua verdade seja também para os outros.” (2) O que é importante marcar nessa análise de Lauand é a raiz do antropocentrismo em Protágoras que chega ao seu auge nos tempos atuais, onde a verdade subjetiva é exaltada em verso e em prosa em dicotomia com a supressão e obscurecimento da verdade. Em ambos os casos, uma possível relação entre verdade, ser e unidade constitui uma couraça rígida, indesejada para o âmbito do conhecimento. Continuando o percurso histórico, Lauand aponta que “ o ceticismo, em suas formas variáveis, é uma negação da verdade, geralmente acompanhada de angústia: o fato novo de nosso tempo é a exaltação dessa negação. Em todo caso, sempre o ceticismo procede de um ato de vontade e não da inteligência.”(3) Os céticos se enclausuraram na acatalepsia (4), que significa a impossibilidade do alcance da verdade. Eles se julgavam no direito da epokhé(5), ou seja, não atribuíam o juízo de verdade ou de falsidade, por alegarem desconhecer a verdadeira natureza das coisas. O objetivo da epokhé nos céticos é o alcance da ataraxia(6), a tranqüilidade da alma pela suspensão do juízo. A influência cética tem rastros na hermenêutica pós-contemporânea: “Esta negação da verdade acentua-se ainda mais no atual pensamento pós-moderno hermenêutico, que reduz a filosofia à literatura e maliciosamente alude a questão do ser e parece desconhecer que a existência enquanto tal é causa única de toda a inteligibilidade e de todo ato lingüístico.” (7) É perfeitamente possível haver profundas relações entre Filosofia e Literatura, ainda que essas tenham jurisdições bem definidas, todavia, não legitima o reducionismo da Filosofia à Literatura। Há também, na hermenêutica pós-contemporânea uma tendência de desvalorização da concepção do ser, verdade e unidade com extrema ênfase na dissolução do vínculo entre existência e intelecção. Tais posturas estão ancoradas na relativização e obscurecimento da verdade ao longo da História da Filosofia.

(1) Verdade e Evidência. in: SPROVIERO, Mario Bruno. Verdade e Conhecimento. trad. Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.81

(2) Verdade e Evidência. in: SPROVIERO, Mario Bruno. Verdade e Conhecimento. trad. Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.82

(3) Verdade e Evidência. in: SPROVIERO, Mario Bruno. Verdade e Conhecimento. trad. Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.82

(4) acatalepsia em grego, que quer dizer literalmente incompreensibilidade

(5) Epokhé em grego, que significa suspensão de juíz

(6) Ataraxia em grego “… e também os céticos, com efeito, esperavam recobrar a serenidade do espírito com base em submeter em juízo a disparidade dos fenômenos e das considerações teóricas; porém, não sendo capazes de fazer isto, suspenderam seus juízos (epokhé) e, ao suspender seus juízos, os acompanhou como por sorte a serenidade do espírito (ataraxia), do mesmo jeito que a sombra segue o corpo.” FILHO, Roberto Bolzani. O ceticismo pirrônico na obra de Sexto Empírico. São Paulo: Tese de mestrado, 1992, p. 29-30

(7) Verdade e Evidência. in: SPROVIERO, Mario Bruno. Verdade e Conhecimento. trad. Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.82

Gosto de pensar que a Filosofia começa na pausa, no silêncio. Vejo quanta gente na sala de aula, querendo demonstrar o que sabe, e não saboreia a Filosofia nos seus menores detalhes. A pressa de demonstrar conhecimento sufoca o espaço silencioso da reflexão construtiva, que acontece à conta-gotas. A reflexão começa com a perplexidade com a realidade, como diria o filósofo Gerd Bornheim. Não falo de um silêncio estático e torturante, mas de um silêncio inquieto que sobrevive de indagações escondidas. Parece que o homem de hoje, perdeu a capacidade de ficar perplexo, de não se conformar com as coisas que acontecem em sua volta. Parece que perdeu a capacidade de parar e ficar consigo mesmo, sem pressa de chegar. Por isso que uma aula de Filosofia não faz efeito em mim no mesmo dia em que ela foi dada, demora um certo tempo, o tempo que essa aula demora em mim. Sinto seus desdobramentos, suas nuances. Sou formado e ao mesmo tempo inacabado. Como diria Husserl, meu limite é o infinito, minha finalidade é a infinidade. Não vou sozinho, tenho companheiros que junto comigo, desbravam a aventura de ir até o limiar da razão e descobrirem os limites da razão e o que pode ir além dela. Por isso que a minha travessia, feita de pedras, é mais feliz…