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Inadequado, sou inadequado
Nesse mundo pós-moderno
Vivo para me adequar.
Saudade do que? Eu não sei…
Sou a perda do que se foi
E a ausência do que não é.
Meus caminhos descontínuos
São vertigens na madrugada
Estou entre as intermitências
E as reticências da vida.
Puro fluxo, carne inteira
Afio minha humanidade
Na navalha da realidade
Sangra todo sentido e dor.
Esses caminhos sem volta
São labirintos obscuros
Espaços tão inexplorados
Quando o espaço sideral.
Navego em mares virtuais
Enormes tsunamis digitais
O mouse vira minha prancha
e a tela meu horizonte.
Sempre com alguém vou
Mas quase sempre tão distante
Estou presente e sou ausente
Já nem sei mais quem sou.

Em algum momento da infância, li numa capa de um livro de gramática a seguinte frase: ” Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: ‘Trouxeste a chave? ‘ ” Era o poema de Carlos Drummond de Andrade. Depois de tanto tempo, me deparo novamente com essa frase. Eis que atravessei o tempo que me leva da infância até o dia de hoje, e essa frase não me deixou. Esqueci dela, mas trazia-a comigo. O exercício que mais me aplico é o de adentrar cegamente, surdamente, mudamente, para que a palavra elaborada possa me transfigurar. Não sou mais o mesmo depois de ter passado por ela, mesmo que não quisesse reconhecer essa verdade. Embriagado no silêncio, minha palavra pode ser profunda e experimentando a solidão, minha presença pode levar a comunhão. Contemplo o poder invisível da palavra tomada como obra de arte. Michel Guerín em seu livro “O que é obra?” nos ensina que: “Toda obra é de ultra-túmulo. Quando ascende no horizonte do mundo, ela atesta sua descida aos infernos, sua iluminação muito profunda. Devolvida à luz, ela continua a se revestir desta marca. Assim, o trabalho cumpre a obra; ele a realiza.” Pois é Drummond, sua poesia desceu a recônditos mais secretos do meu ser, e por lá decidiu se instalar sem o meu conhecimento. Produziu os seus efeitos benéficos, sem que eu tomasse conta. Deixou marcas profundas de verdade e na verdade. Hoje eu sei, pois ela veio à tona e o seu trabalho realizou o ser estético da obra de arte. Descobri a beleza de sua verdade, um desvelamento de ser e loucamente comecei a viver, como se fosse o primeiro, o único e o último dia da minha vida. Martin Heidegger também experenciou isso, e em seu livro “A origem da obra de arte” nos relata que: “A verdade é a desocultação do ente como ente. A verdade é a verdade do ser. A beleza não ocorre ao lado dessa verdade. Se a verdade se põe em obra na obra, aparece. É este aparecer, enquanto ser da verdade na obra e como obra, que constitui a beleza. O belo pertence assim ao autoconhecimento da verdade. O belo não é somente relativo ao agrado e apenas como o seu respectivo objeto. Todavia, o belo reside na forma, mas apenas porque outrora a forma clareou a partir do ser, enquanto a entidade do ente. A realidade converte-se em objetividade, e a objetividade torna-se vivência.” A beleza acontece na verdade e ninguém pode ficar imune à sua manifestação, quando está diante de uma obra de arte. Quero essa hermenêutica para a vida inteira!

Bibliografia

GUERÍN, Michel – O QUE É UMA OBRA? – Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1995.

 HEIDEGGER, Martin –  A Origem da Obra de Arte -Trad. Maria da Conceição Costa, Lisboa, Edições 70, 1977.